“Economia Azul Sustentável: as Águas Dando Vida ao Mar do Sertão” – Por Por Célio Fernando Bezerra Melo

Economista destaca gestão integrada das águas como estratégia para desenvolvimento econômico e conservação ambiental.
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Foto: Reprodução

Artigo defende a economia azul sustentável como estratégia de desenvolvimento. Texto é baseado em relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Autor destaca a integração entre recursos hídricos do sertão e o litoral cearense. Proposta inclui conservação ambiental, inovação e fortalecimento de políticas públicas.

Há uma pergunta que o Brasil ainda não teve coragem de fazer diante do próprio litoral: e se o mar não fosse fronteira, mas fundação? Em 2026, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente publicou em Nairóbi um documento que responde a essa indagação com método e serenidade. Intitulado Transitioning to a Sustainable Blue Economy: A Practical Framework, o texto propõe uma virada tão simples quanto revolucionária: deixar de enxergar oceanos, costas e águas interiores como despensa infinita a ser simplesmente explorada e passar a tratá-los como ativos estratégicos de estabilidade econômica, resiliência climática e bem-estar dos povos. Não se trata de lirismo ambientalista; trata-se de aritmética. Segundo o próprio relatório, cada unidade investida na gestão sustentável dos oceanos pode retornar até cinco vezes seu valor em benefícios ambientais, sociais e econômicos. O mar, quando respeitado, presenteia generosamente quem o ama.

E como não amar? Confesso que gosto de A-Mar. Gosto das ondas indo e voltando, dessa respiração antiga que não conhece pressa. Das marolas mansas banhando nossos pés e respeito os tsunamis nessa lembrança, de quando em quando, do mar e sua força que não se negocia, apenas se compreende. É desse duplo rosto do oceano, carícia e advertência, que trata, no fundo, todo bom planejamento das águas.

Convém desfazer, de início, uma confusão que teima em persistir. Economia azul, no sentido estrito, designa apenas a atividade econômica nascida das águas e, por si só, não se mostra virtuosa. Por exemplo: uma frota que esvazia o mar de seus peixes é economia azul; uma plataforma que mancha as ondas de óleo é economia azul. Assim, o adjetivo sustentável, portanto, não é ornamento nem redundância, mas correção de rumo. Ele separa as águas: de um lado, o crescimento que devora aquilo que o alimenta; de outro, o crescimento que se
desacopla da poluição, da destruição dos ecossistemas e da perda da biodiversidade. O documento do PNUMA existe justamente para apontar esse divisor e oferecer, a quem quiser trilhá-lo, um caminho concreto rumo à margem certa.

É preciso, porém, alargar o entendimento do que sejam essas águas, e o próprio documento nos convida a isso ao incluir os sistemas hídricos interiores em sua definição. No Ceará, a economia azul não começa na praia: nasce lá longe, no sertão, onde o açude é o mar dos que nunca viram o oceano. As águas que descem dos altos, que enchem o São Francisco transposto, que abastecem os reservatórios e correm pelos rios intermitentes são as mesmas que, ao fim de sua jornada, deságuam no Atlântico e dão vida ao mar. Cuidar da nascente é cuidar da foz; poluir o riacho do sertão é envenenar a onda do litoral. Quando falamos em águas dando vida ao mar do sertão, falamos dessa unidade profunda entre o interior e a costa, entre a caatinga sedenta e o azul infinito, um só ciclo em que cada gota importa. A economia azul sustentável, bem compreendida, é também uma política de águas para quem vive longe da maresia, reconhecendo que a vida do mar depende da saúde de cada bacia que a ele conduz, e que o sertanejo, ao zelar por seu açude, zela igualmente pelo oceano que talvez jamais conheça.Praias e ilhas

Esse cuidado se organiza em três fases encadeadas, como as marés que se sucedem sem se atropelar. A primeira é compreender o sistema, e nela reside a honestidade do diagnóstico: levantam-se as linhas de base sociais, ambientais e econômicas, mapeia-se quem vive do mar, mede-se a saúde dos ecossistemas e revela-se o quanto o oceano sustenta, de fato, a economia nacional. Nenhuma promessa séria dispensa esse retrato fiel do ponto de partida. A segunda fase é definir visão e direção, momento em que o diagnóstico se converte em estratégia por meio de metas compartilhadas, de coerência entre as políticas setoriais e de um modelo de financiamento que não se contente com a boa intenção. A terceira é entregar a transição, quando o plano abandona o papel e ganha o território, materializando-se em gestão integrada das águas, em soluções baseadas na natureza e em sistemas contínuos de monitoramento e aprendizado. O ciclo não se encerra na execução; ele retorna ao início, como onda que, ao recuar, refaz a praia.

O que torna esse framework tão pertinente ao Brasil é a distância melancólica entre o que temos e o que fazemos com o que temos. O país detém um litoral de dimensões continentais, uma zona econômica exclusiva, a Amazônia Azul, biomas costeiros de valor incalculável e uma gente litorânea que sustenta boa parte do nosso turismo, da nossa pesca e do nosso comércio. E, no entanto, seguimos administrando esse patrimônio em pedaços, com setores que enxergam o mesmo mar através de lentes diferentes. Cada um foca a própria imagem, ajusta o próprio grau, e o resultado é um oceano visto em fragmentos, jamais em conjunto. Onde deveria haver uma política coerente, há uma coleção de olhares desencontrados. Enquanto isso, potências que sequer possuem mar como o nosso já o contemplam com lente única, meticulosa e estratégica. E no oceano, como na geopolítica, quem não enxerga o todo termina entregando-o a quem já o mira por inteiro.Consultoria financeira

É na aterrissagem regional que o discurso se faz política, e o verbo se faz costa. José de Alencar, em Iracema, descreveu o mar do Ceará com a reverência de quem sabia que as ondas eram personagens tanto quanto a heroína. É nesse mesmo mar, agora ameaçado por plásticos e descaso, que a economia azul sustentável pode deixar de ser conceito importado para tornar-se motor de um desenvolvimento nascido da própria maré. Financiar municípios costeiros para instalar ecobarreiras que interceptem os resíduos antes que o mar os receba, dotá-los de embarcações e de transporte à altura de suas necessidades, erguer usinas de reciclagem que fechem o ciclo do lixo litorâneo, restaurar manguezais que abraçam as cidades contra as ressacas e guardam carbono em suas raízes silenciosas: tudo isso vive no espírito do framework e responde a dores palpáveis de quem acorda todos os dias diante das ondas. Restaurar um ecossistema não é despesa ambiental; é infraestrutura de proteção, é semente de emprego, é dignidade devolvida ao território. Fortaleza, com sua vocação para a inovação e seu potencial de retrofit urbano, pode liderar um modelo em que a sustentabilidade costeira e a transformação econômica caminhem de mãos dadas pela mesma orla.

Nada disso, porém, floresce sem uma condição que o documento nomeia sem rodeios: os fatores facilitadores. Liderança efetiva, instituições integradas, participação genuína das comunidades, cooperação internacional, financiamento adequado, capacidade técnica e dados acessíveis: são esses os pilares que distinguem o país que executa daquele que apenas assina compromissos e os deixa evaporar ao sol. O Brasil raramente fracassa por escassez de natureza; pode fracassar por falta de coerência institucional e por decisão política que resista ao
tempo e às marés eleitorais.

A lição maior do relatório do PNUMA é que o oceano não pertence somente ao presente. Cada mangue derrubado, cada cardume esgotado, cada tonelada de plástico lançada às águas é uma dívida contraída contra gerações que ainda não nasceram e que herdarão o mar que lhes deixarmos. Como as ondas de que tanto gosto, indo e voltando, também as escolhas de hoje retornarão amanhã, em marola de bênção ou em tsunami de arrependimento. Cuidar do oceano é reconhecer que prosperidade e conservação nunca foram adversárias e que a soberania de um povo também se mede pela ternura com que zela por suas águas. O Ceará tem o sertão cujas águas, ao correrem para o oceano, dão vida ao mar. Tem a ciência, tem a gente que o ama. A coragem agora é de transformar o azul do nosso mapa no azul da nossa estratégia, antes que outros o pintem por nós. Porque, no fim, cuidar das águas é cuidar da vida, e não há causa mais nobre do que a de zelar por aquilo que nos deu origem e há de nos sobreviver.

Tags:Azulcelio fernando bezerraEconomiasustentavel

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